Quanto ganha um conselheiro de administração no Brasil em 2026

“Quanto ganha um conselheiro de administração no Brasil?” não é uma pergunta — são quatro perguntas. Conselheiros consultivos de startups podem trabalhar pro bono ou por equity. Conselheiros profissionais de empresas privadas formalizadas ganham R$ 10 mil a R$ 30 mil por mês. Membros de conselho de administração em empresas listadas na B3 recebem R$ 30 mil a R$ 80 mil. Em mega-cap, financeiras Nível 1 e estatais com múltiplos comitês, valores ultrapassam R$ 100 mil mensais — com casos divulgados em formulários de referência da CVM chegando a R$ 1,2 milhão por mês.

A pergunta “qual é a média” não tem resposta útil. As amostras dos estudos disponíveis variam de 133 a 1.174 conselheiros, as metodologias divergem, e tratar conselhos consultivos de PMEs e mega-cap listadas como um único mercado distorce qualquer estimativa.

Este guia cruza quatro estudos independentes — IBGC 2020 (capital fechado), Page Executive LATAM 2021-22, Evermonte/Forbes 2025 e formulários de referência da CVM/B3 — para separar os quatro mercados, mostrar o que mudou entre 2020 e 2025, e identificar os fatores que mais movem a remuneração.

A remuneração explica por que o mercado é competitivo. Para quem já tem perfil sênior, veja também como usar headhunters para chegar a conselhos sem tratar isso como uma candidatura comum.

Resposta rápida — os quatro mercados

Tipo de conselhoFaixa típica (mensal)Característica
Consultivo informal / pro bonoR$ 0 – R$ 15KStartups, ONGs, PMEs sem governança formal. Equity é comum.
Conselho privado formalizadoR$ 10K – R$ 30KEmpresas com estatuto, regimento e reuniões regulares
Conselho de administração — listadas B3R$ 30K – R$ 80KMédio e grande porte; comitês adicionam 30-50%
Mega-cap, estatais e presidênciaR$ 80K – R$ 1,2M+Concentrado em poucos players; jetons em estatais

Faixas baseadas no cruzamento de quatro estudos independentes (detalhes na seção “Sobre os dados”, ao final).

Por que não existe uma única resposta

O erro mais comum em coberturas sobre remuneração de conselheiros no Brasil é tratar o mercado como se fosse uma única realidade. Não é. Quando uma matéria diz “conselheiros ganham, em média, R$ 47 mil por mês”, ela está tipicamente extraindo a média de empresas listadas na B3 — uma fatia minúscula do mercado, fortemente puxada por mega-cap. Aplicar essa média a uma vaga de conselheiro consultivo em uma empresa familiar de R$ 30 milhões de receita é desinformação.

O mercado se divide em quatro segmentos claros, cada um com lógica própria de remuneração, perfil de conselheiro e nível de responsabilidade legal. Misturá-los gera estimativas que não servem nem para o aspirante a conselheiro avaliando o caminho, nem para a empresa estruturando o orçamento de governança.

A segmentação abaixo cruza os principais estudos disponíveis. Nenhum deles, isoladamente, dá conta do quadro. Juntos, eles revelam um mercado em profissionalização acelerada, com forte concentração geográfica em São Paulo e dependência crítica de redes de relacionamento para acesso.

Os quatro mercados de conselheiros no Brasil

Clique nas abas para comparar faixas, perfis e dados de cada mercado




FAIXA TÍPICA

R$ 0 – R$ 15K

por mês · frequentemente pro bono ou equity

Conselhos consultivos não-formalizados de startups, ONGs, PMEs e empresas familiares em estágio inicial. O conselheiro orienta, mas não tem responsabilidade legal nem voto. Para muitos executivos, é a porta de entrada na carreira.

DADOS DE REFERÊNCIA

61,9% dos conselheiros consultivos em empresas de capital fechado ganhavam até R$ 15K/mês (IBGC 2020, n=269)

17% dos conselheiros brasileiros declararam não receber remuneração (Page Executive LATAM 2021-22, n=351 Brasil)

R$ 5K – R$ 10K/mês era a faixa de 26,2% dos consultivos (IBGC 2020)

Mercado 1 — Conselhos informais e pro bono

É a porta de entrada mais comum na carreira de conselheiro. Inclui conselhos consultivos não-formalizados de startups, ONGs, empresas familiares em estágio inicial e PMEs sem governança estruturada. A remuneração média típica fica entre R$ 0 e R$ 15 mil por mês — frequentemente com pagamento em equity (em startups) ou totalmente pro bono (em ONGs e fases iniciais de empresa familiar).

O estudo da Page Executive LATAM (2021-22), com amostra de 1.174 conselheiros — sendo 351 brasileiros —, mostra que 17% dos conselheiros no Brasil declaram não receber remuneração alguma. Esse percentual sobe para 31% quando considerada a amostra completa da América Latina. O dado do IBGC para empresas de capital fechado (2020, n=269) é mais granular: 61,9% dos conselheiros consultivos ganhavam até R$ 15 mil mensais, com 26,2% concentrados especificamente na faixa de R$ 5 mil a R$ 10 mil.

Para o profissional construindo trajetória em conselhos, esses assentos têm valor estratégico maior que o monetário: constroem histórico documentado, geram referências e abrem caminho para conselhos remunerados. Muitos conselheiros de administração experientes começaram exatamente assim.

Mercado 2 — Conselhos privados formalizados

Quando uma empresa privada formaliza seu conselho — registra a existência no estatuto, define regimento interno, estabelece pauta e cadência de reuniões — a remuneração dos conselheiros migra para a faixa de R$ 10 mil a R$ 30 mil mensais. Pesquisas chamam esse efeito de “prêmio de formalização”: o mesmo profissional, atuando em um conselho consultivo informal e em um formalizado, recebe valores bem diferentes.

É nesta faixa que está hoje a maioria dos conselheiros profissionais brasileiros. O estudo da Evermonte Institute / Forbes Brasil de 2025 (n=133) traz o número mais citado: 80% dos conselheiros estão na faixa de R$ 15 mil a R$ 30 mil por mês. Cinco anos antes, o IBGC mostrava 25,5% dos conselheiros administrativos privados na faixa de R$ 10 mil a R$ 15 mil — o que sugere que o piso do mercado profissional subiu nesse período (mais sobre isso na próxima seção).

A Page Executive, em estudo independente com escopo latino-americano, chega a faixas equivalentes para o Brasil: US$ 2 mil a US$ 6 mil mensais, o que ao câmbio típico converte para algo entre R$ 10 mil e R$ 30 mil. Três estudos independentes, com metodologias diferentes, convergem para a mesma faixa central — é o dado mais robusto que temos sobre o mercado brasileiro de conselhos profissionalizados.

Mercado 3 — Empresas listadas na B3

A partir do momento em que a empresa é listada na B3, dois fatores entram em jogo: a obrigatoriedade de divulgação pública via formulário de referência (Seção 8 do Formulário de Referência da CVM) e o nível de governança exigido — segmento Tradicional, Nível 1, Nível 2 ou Novo Mercado. Quanto mais rigoroso o segmento, maior tende a ser a remuneração.

Nesta faixa, os números saltam: a remuneração típica vai de R$ 30 mil a R$ 80 mil mensais, conforme dados públicos de formulários de referência. Em empresas do Novo Mercado com comitês especiais — auditoria, remuneração, sustentabilidade, riscos —, valores podem ultrapassar R$ 100 mil mensais. Conselheiros que participam de comitês recebem honorários adicionais que tipicamente representam 30% a 50% sobre a remuneração base.

A Evermonte 2025 estratifica a amostra por porte de empresa e mostra como o tamanho importa: em empresas com receita acima de R$ 2 bilhões, 26,1% dos conselheiros ganham entre R$ 30 mil e R$ 50 mil por mês, e 8,7% recebem acima de R$ 50 mil. Em empresas com receita abaixo de R$ 50 milhões, 95% ficam na faixa R$ 15 mil – R$ 30 mil. A relação entre porte da empresa e remuneração é a mais robusta de todo o dataset.

Sob a Lei das S.A., o conselheiro de administração tem responsabilidade legal real: vota em assembleia, aprova demonstrações financeiras, elege e destitui diretores, e pode ser civil e criminalmente responsabilizado por decisões da companhia. Essa responsabilidade — combinada com o tempo dedicado a reuniões plenárias (média de 6 a 12 por ano em listadas) e participação em comitês — justifica a diferença de remuneração em relação ao consultivo.

Mercado 4 — Mega-cap, estatais e jetons

O quarto mercado existe em uma camada à parte. Inclui conselheiros de mega-cap brasileiras, financeiras Nível 1 da B3, presidentes de conselho e membros de conselhos de estatais. Aqui, valores ultrapassam R$ 100 mil mensais com frequência. O máximo individual divulgado em formulário de referência foi de R$ 1,2 milhão por mês — uma compensação anual próxima de R$ 15 milhões para um único assento de conselho. Não é típico; é o extremo do mercado, e tipicamente reflete combinações de presidência, múltiplos comitês e instituição financeira de grande porte.

O presidente do conselho ganha, em média, 3 vezes a remuneração de um membro regular, segundo dados do Spencer Stuart Board Index. Quando o membro regular médio recebe R$ 84 mil mensais (média 2024-25 de mid-to-large cap), o presidente averages aproximadamente R$ 254 mil mensais. Vice-presidente, líderes de comitê e conselheiros independentes que ocupam múltiplas posições críticas também ficam acima da média.

Estatais usam um mecanismo próprio: o jeton. É um pagamento por reunião — não um salário fixo — pago a conselheiros administrativos e fiscais de empresas controladas pelo Estado. O STF (Supremo Tribunal Federal) já decidiu que jetons não são considerados remuneração regular do funcionalismo público e, portanto, não estão sujeitos ao teto constitucional. Isso significa que um ministro de Estado, secretário ou servidor público pode acumular seu salário-base com múltiplos jetons sem violar o limite constitucional. Historicamente, gigantes como Petrobras e BR Distribuidora pagavam jetons da ordem de R$ 8.246 e R$ 8.232 por reunião, respectivamente. Para conselheiros com múltiplos assentos em estatais — situação não rara entre ex-ministros e ex-secretários —, o agregado mensal pode ser substancial.

Para chegar neste mercado, certificação formal (CCA do IBGC, por exemplo), trajetória executiva em empresa de grande porte, experiência prévia em conselhos e rede de relacionamento são pré-requisitos quase universais. Não é um mercado acessível por busca aberta.

2020 → 2025 — a profissionalização em curso

Entre o estudo do IBGC de 2020 e o da Evermonte de 2025, é possível observar uma movimentação direcional clara: a maioria dos conselheiros, que em 2020 estava concentrada na faixa “até R$ 15 mil mensais”, em 2025 está concentrada na faixa “R$ 15 mil a R$ 30 mil mensais”. Antes de ler isso como inflação simples ou como salário-real crescendo, três cuidados:

Os estudos não são diretamente comparáveis. O IBGC 2020 cobre apenas empresas de capital fechado, com amostra de 269 conselheiros. A Evermonte 2025 tem amostra geral, com 133 conselheiros, possivelmente enviesada para conselhos formalizados. As metodologias de pergunta e segmentação também diferem. A movimentação observada pode refletir, em parte, profissionalização real do mercado; em parte, mudança no perfil das empresas dispostas a responder pesquisas; e em parte, simples inflação dos cinco anos. Tratamos isso como sinal direcional, não como série temporal limpa.

Dito isso, o movimento é consistente com um padrão maior. Entre 2010 e 2016, segundo estudo da CFA Society Brasil baseado em 230 empresas listadas, o número de conselheiros independentes em conselhos brasileiros cresceu 66,1% (de 221 para 367), enquanto o tamanho médio dos conselhos diminuiu (de 1.813 para 1.701 membros totais). Conselhos menores, com maior proporção de independentes — exatamente o padrão associado à governança madura. Em paralelo, dados históricos do IBGC mostram que a remuneração média anual de conselheiros administrativos cresceu 44% apenas entre 2016 e 2018 (de R$ 394 mil para R$ 569 mil).

Distribuição salarial: 2020 vs 2025

A profissionalização aparece no movimento da maioria para faixas mais altas — mas os estudos não são diretamente comparáveis

IBGC 2020 · CAPITAL FECHADO · N=269

EVERMONTE 2025 · BRASIL · N=133

Os dois estudos têm metodologias diferentes (capital fechado vs. amostra geral; n diferente). A comparação é direcional, não uma série temporal. A movimentação da maioria de “até R$ 15K” (2020) para “R$ 15K-30K” (2025) sugere profissionalização, mas pode também refletir diferenças de amostra.

O sentido geral é claro: a função de conselheiro deixou de ser uma posição cerimonial — assento honorário para executivos aposentados ou patriarcas familiares, prática comum até os anos 2000 — e se tornou trilha profissional com responsabilidade legal real, dedicação significativa e remuneração condizente. O motor desta mudança foi normativo (obrigação da CVM de divulgar remuneração individualizada de administradores, via Formulário de Referência) e cultural (pressão crescente por governança de qualidade vinda de investidores institucionais e fundos de pensão).

Fatores que determinam quanto ganha um conselheiro

Porte e tipo da empresa

É o fator isolado mais importante. Empresas com receita até R$ 50 milhões raramente pagam acima da faixa R$ 15-30 mil. Empresas entre R$ 50 milhões e R$ 2 bilhões começam a abrir espaço para R$ 30-50 mil. Acima de R$ 2 bilhões, 35% dos conselheiros ganham mais de R$ 30 mil mensais. Empresas listadas pagam, em geral, entre 20% e 40% mais que empresas privadas de porte equivalente — a contrapartida da maior exigência de governança e compliance.

Setor

Variações setoriais são grandes. Segundo o Spencer Stuart Board Index 2025, o setor de Tecnologia, Mídia e Telecom paga em média R$ 118 mil mensais (39% acima da média de mercado). Financeiro paga R$ 104 mil (+23%). Já o setor de Saúde paga R$ 55 mil (36% abaixo da média), em parte por concentração de empresas familiares fundadoras e estruturas menos consolidadas. Indústria tradicional fica próxima de R$ 76 mil. Setores fortemente regulados ou altamente técnicos pagam um prêmio de escassez para conselheiros com expertise específica.

Segmento da B3

Dentro das listadas, o segmento de governança importa. Empresas do Novo Mercado e Nível 2 — segmentos com regras mais rigorosas de proteção a minoritários e independência de conselho — tendem a pagar mais que empresas do Tradicional. Dados históricos do IBGC mostraram empresas Nível 1 com remuneração média anual de R$ 1,38 milhão (2018), contra R$ 382 mil no Tradicional.

Posição no conselho

Presidente do conselho recebe, em média, 3x a remuneração de um membro regular. Vice-presidente e coordenadores de comitês também ficam acima da média. Esse multiplicador reflete a maior responsabilidade, dedicação de tempo e exposição reputacional da posição.

Comitês especiais

Participar de comitê de auditoria, remuneração, sustentabilidade ou riscos adiciona tipicamente 30% a 50% sobre a remuneração base do conselheiro. O comitê de auditoria está presente em 94% das listadas brasileiras (Spencer Stuart 2025); comitês de RH/Remuneração em 61%. Comitês especializados em tecnologia, inovação e transformação digital cresceram 483% entre 2017 e 2022 — a maior expansão recente da estrutura de governança brasileira.

Experiência e trajetória

A Page Executive mostrou que conselheiros com menos de 1 ano de experiência recebem em média US$ 23,1 mil anuais de remuneração fixa, enquanto aqueles com mais de 10 anos recebem US$ 33,9 mil — diferença de cerca de 47%. Reputação acumulada, rede e histórico de mandatos anteriores são determinantes mais fortes que idade ou formação isoladamente.

Acesso — como conselheiros chegam ao primeiro assento

Há uma pergunta que toda matéria sobre remuneração de conselheiros deveria responder e raramente responde: como esses assentos são preenchidos? Sem entender o mecanismo de acesso, é fácil tratar o mercado de conselhos como se fosse um mercado de trabalho normal — com vagas anunciadas, processos seletivos abertos e mobilidade lateral. Não é.

O estudo da Page Executive LATAM (2021-22, n=1.174) traz o dado mais claro disponível: 65% dos assentos de conselho na América Latina são preenchidos via relacionamento com acionistas ou networking direto. Apenas 7% passam por headhunter ou processo formal de busca. Os 28% restantes envolvem recomendações de executivos, antiguidade na empresa ou indicação interna por outros conselheiros.

Como conselheiros chegam ao primeiro assento

O mercado de conselhos é de relacionamento, não de processo seletivo aberto

65% · Relacionamento com acionistas ou networking

Indicação direta de sócios, investidores ou rede profissional próxima

28% · Outros caminhos

Recomendação de executivos, antiguidade na empresa, indicação interna

7% · Headhunter / busca formal

Processo seletivo estruturado via consultoria especializada

Fonte: Page Executive / IGCLA / IFC — Board Members Survey LATAM 2021-22, n=1.174 (subamostra Brasil n=351)

Esse dado tem implicações práticas para qualquer profissional pensando em conselhos como caminho de carreira. Primeiro: construir e cultivar relacionamentos com sócios-investidores, controladores e fundos é mais determinante que enviar currículos. Segundo: a primeira posição em conselho — mesmo que consultiva e pro bono — funciona como sinalização para a segunda, e por isso o “valor estratégico” da entrada vale mais que o valor monetário inicial. Terceiro: certificação (IBGC, Board Academy, FDC) é frequentemente um pré-requisito implícito, mas raramente o gatilho da indicação — quem indica conhece o profissional pela trajetória, não pela credencial.

Mulheres em conselhos — o gap real é de acesso, não conclusivamente de remuneração

A representação feminina em conselhos brasileiros é baixa e tem avançado lentamente. Dados da Evermonte 2025 mostram que 77,4% dos conselheiros brasileiros são homens. Em estudo anterior do mesmo instituto, mulheres ocupavam apenas 12% dos assentos de conselho de administração e 7,6% dos assentos consultivos. Entre os boards pesquisados em 2025, 27,1% não tinham nenhuma mulher; 59,4% tinham apenas uma ou duas.

Há um sinal de aceleração: nas indicações pós-2020, mulheres representam 9,85% das entradas em conselhos, contra 6,82% antes de 2020. O progresso existe, mas a partir de uma base muito baixa. Na comparação latino-americana ampla, a Page Executive identificou 24% de mulheres em conselhos — número mais alto porque a amostra inclui muitos conselhos consultivos de empresas privadas em estágios iniciais, onde a barreira de entrada é menor.

Sobre remuneração por gênero, é preciso cuidado. Os dados disponíveis não permitem isolar um gap salarial limpo, depois de controlar por porte de empresa, tipo de conselho, posição e senioridade. O IBGC 2020 mostra mulheres sobrerrepresentadas tanto na faixa mais baixa (até R$ 5 mil em conselhos administrativos) quanto, paradoxalmente, na faixa acima de R$ 30 mil em conselhos consultivos. Sem mais granularidade da amostra, qualquer conclusão sobre “mulheres ganham mais” ou “mulheres ganham menos” seria sobreinterpretação.

O gap mais defensável a apontar é o de acesso, não o de remuneração. Estruturalmente, o problema brasileiro é a baixa proporção de mulheres nos assentos disponíveis — o que reflete tanto vieses nos mecanismos de indicação (largamente baseados em redes históricas, predominantemente masculinas em níveis seniores) quanto barreiras anteriores na trajetória executiva.

Pagamento fixo, variável e equity

Diferente da remuneração executiva — fortemente atrelada a metas de curto prazo e desempenho de ações —, a remuneração de conselheiros no Brasil é predominantemente fixa. A Evermonte 2025 mostra que 75,2% dos conselheiros recebem remuneração fixa como modelo predominante. 70,7% não têm nenhuma componente de remuneração ligada à performance da empresa. Apenas 3,8% têm pacote efetivamente atrelado a indicadores de desempenho corporativo.

Isso é, na verdade, considerado boa prática de governança. A racional: conselheiros devem manter independência e capacidade de fazer oversight crítico — incluindo questionar diretores executivos e revisar criticamente metas e desempenho —, e isso é prejudicado quando sua remuneração depende dos mesmos resultados que estão avaliando. O modelo majoritariamente fixo protege a função fiduciária.

Equity como componente de remuneração de conselheiros existe em 21% das empresas listadas brasileiras, segundo Spencer Stuart 2025 — número que tem se mantido relativamente estável e até diminuído ligeiramente (era 25% no ano anterior). Em startups, é mais comum: conselheiros consultivos frequentemente recebem participação em troca de dedicação, especialmente em fases pré-Série B.

Calculadora de Remuneração para Conselheiros

Use a calculadora abaixo para estimar sua faixa de remuneração potencial considerando porte de empresa, setor, segmento B3, posição e experiência. A estimativa é baseada no cruzamento dos quatro estudos discutidos neste guia.

Perguntas frequentes

Qual é a remuneração média de um conselheiro no Brasil?

Não existe uma única média útil. A resposta mais defensável é por segmento: conselhos consultivos informais pagam de R$ 0 a R$ 15 mil; conselhos privados formalizados, R$ 10 mil a R$ 30 mil; listadas na B3, R$ 30 mil a R$ 80 mil; mega-cap, estatais e presidências, acima de R$ 80 mil podendo chegar a R$ 1,2 milhão mensais em casos extremos.

Quanto ganha um conselheiro consultivo?

Em conselhos consultivos informais (startups, ONGs, PMEs sem governança formal), a faixa típica é R$ 0 a R$ 15 mil mensais, com forte presença de equity em vez de honorário fixo. Em conselhos consultivos formalizados em estatuto, a faixa sobe para R$ 10 mil a R$ 30 mil — efeito chamado de “prêmio de formalização”.

Quanto ganha um conselheiro de administração em empresa listada?

De R$ 30 mil a R$ 80 mil mensais em empresas de médio e grande porte na B3, conforme dados públicos de formulários de referência. Participação em comitês adiciona 30% a 50%. Presidência do conselho ganha em média 3x o valor do membro regular.

O que são jetons em conselhos de estatais?

Jetons são pagamentos por reunião feitos a conselheiros de empresas estatais. Por decisão do STF, não estão sujeitos ao teto constitucional do funcionalismo público. Historicamente, jetons de Petrobras e BR Distribuidora ficavam ao redor de R$ 8.200 por reunião. Conselheiros com múltiplos assentos em estatais podem acumular valores mensais significativos.

Como conseguir o primeiro assento em conselho?

65% dos assentos são preenchidos via relacionamento com acionistas ou networking direto (Page Executive LATAM 2021-22). Apenas 7% passam por headhunter. O caminho mais comum começa com conselhos consultivos pro bono, acumulando trajetória documentada, e migrando depois para posições remuneradas. Certificação IBGC ou equivalente é pré-requisito implícito para conselhos de listadas. Veja nosso guia completo de como tornar-se conselheiro.

Conselho fiscal ganha quanto?

A Lei das S.A. determina que a remuneração do conselheiro fiscal não pode ser inferior a 10% da remuneração média dos diretores estatutários da empresa. Na prática, isso resulta em R$ 8 mil a R$ 25 mil mensais em empresas de médio porte, podendo ser significativamente maior em listadas grandes.

Mulheres ganham menos como conselheiras?

Os dados disponíveis não permitem afirmar isso de forma clara. O gap mais robusto e documentado é de acesso: mulheres ocupam apenas 12% dos assentos de conselho de administração e 7,6% dos consultivos. Sobre remuneração isolada, depois de controlar por porte, posição e segmento, as evidências disponíveis são ambíguas.

Sobre os dados — metodologia e limitações

As estimativas neste guia cruzam quatro estudos independentes. Nenhum deles é, isoladamente, suficiente; e nenhum deles é diretamente comparável aos demais. As diferenças importam:

O IBGC 2020 (n=269) cobre exclusivamente empresas de capital fechado — não listadas em bolsa. É o melhor dado disponível para conselhos privados, mas não diz nada sobre listadas. O Page Executive LATAM 2021-22 (n=1.174, sendo n=351 no Brasil) tem o maior tamanho de amostra e é o único que segmenta por mecanismo de acesso e estrutura de remuneração, mas reporta em USD e mistura escopo latino-americano. O Evermonte / Forbes Brasil 2025 (n=133) é o dado mais recente para o mercado brasileiro consolidado, mas a amostra é pequena e provavelmente enviesada para conselhos formalizados. Os Formulários de Referência da CVM/B3 são dados públicos e contínuos, mas cobrem apenas empresas listadas.

Onde os quatro estudos convergem (faixa central R$ 10 mil – R$ 30 mil para conselhos profissionais, papel da posição/comitês como amplificador, mecanismo predominantemente fixo de remuneração), o sinal é robusto. Onde divergem (volumes de unpaid, percentuais exatos por gênero), preferimos apresentar a faixa de variação a uma média única possivelmente enganosa.

Esta análise será atualizada à medida que novos estudos forem divulgados — em particular, com a pesquisa própria do Conselho.com.br, em construção via entrevistas com conselheiros e headhunters brasileiros.

Fontes

  • IBGC (2020) — Remuneração de Conselheiros em Empresas de Capital Fechado, n=269. Disponível via Estadão / E-Investidor.
  • Page Executive / IGCLA / IFC (2021-22) — Board Members Survey LATAM, n=1.174 (subamostra Brasil n=351).
  • Evermonte Institute / Forbes Brasil (2025) — “Quem são, quanto ganham e o que tira o sono dos conselheiros no Brasil”, Board Trends Brazil, n=133.
  • CVM / B3 — Formulários de Referência (Seção 8 — Remuneração de Administradores), dados públicos contínuos.
  • Spencer Stuart — Board Index Brasil 2025, dados sobre comitês e variação setorial.
  • CFA Society Brasil — Estudo sobre independência em conselhos 2010-2016, 230 empresas listadas.
  • IBGC (7ª edição) — Pesquisa Remuneração dos Administradores, dados históricos 2016-2018.
  • Conselho.com.br — Pesquisa própria em construção, entrevistas com conselheiros e headhunters.

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