Quantos cargos remunerados de conselheiro existem no Brasil?

Resposta curta: não existe um cadastro oficial de todos os conselheiros remunerados no Brasil. A melhor estimativa precisa separar dois mercados: o mercado formal, mais visível, e o mercado informal de conselhos consultivos e assessorias estratégicas pagas.

Além de entender o tamanho do mercado, vale saber quais canais podem acelerar a entrada. Um deles é o headhunter para conselheiro, sobretudo quando existe um mandato específico de board search.

Minha estimativa atual é esta:

  • Mercado formal e mais defensável: aproximadamente 6 mil a 52 mil posições remuneradas.
  • Mercado ampliado, incluindo conselhos consultivos informais em empresas menores: aproximadamente 50 mil a 150 mil posições remuneradas.
  • Número de pessoas: provavelmente menor que o número de posições, porque conselheiros experientes acumulam cadeiras. Uma estimativa razoável seria algo como 30 mil a 100 mil pessoas recebendo algum tipo de remuneração recorrente como conselheiro, advisor ou membro de conselho consultivo.

Se eu tivesse que usar um único número para dimensionar a oportunidade, usaria algo em torno de 80 mil posições remuneradas no Brasil, com a ressalva de que esse número inclui desde cadeiras formais em conselhos de administração até conselhos consultivos leves, pagos com valores muito menores.

Por que essa estimativa é difícil?

O problema é que “ser conselheiro” pode significar coisas muito diferentes.

  • Um conselheiro de administração de uma companhia aberta, eleito formalmente e divulgado ao mercado.
  • Um conselheiro de empresa fechada, familiar ou investida por fundo.
  • Um membro de conselho consultivo, sem poder deliberativo.
  • Um advisor de startup, às vezes remunerado em dinheiro, equity ou contrato mensal.
  • Um profissional contratado por uma empresa pequena para participar de reuniões mensais com os sócios.

O primeiro grupo aparece em bases regulatórias. Os demais quase nunca aparecem em bases públicas. É justamente por isso que uma estimativa conservadora tende a subestimar muito o mercado real.

Os números de base

Alguns números ajudam a ancorar a estimativa.

  • A CVM registrava 715 companhias abertas, estrangeiras e incentivadas com registro ativo em 2025. Esse é o núcleo mais visível do mercado de conselhos.
  • O Mapa de Empresas registrava 24,2 milhões de empresas ativas no Brasil no 2º quadrimestre de 2025.
  • Dentro desse universo, havia 7,96 milhões de sociedades limitadas, 205 mil sociedades anônimas e 39 mil cooperativas.
  • Segundo o IBGE/CEMPRE 2022, havia 2,87 milhões de empresas e organizações com empregados. Destas, 568.966 tinham de 10 a 49 pessoas, 75.809 tinham de 50 a 249 pessoas e 21.861 tinham 250 pessoas ou mais.

Esses números não dizem quantas empresas têm conselho. Mas mostram que o universo potencial é grande. O erro metodológico seria olhar apenas para companhias abertas e concluir que o mercado brasileiro de conselheiros é pequeno.

O piso: companhias abertas e empresas reguladas

Começando pelo piso: se considerarmos as 715 companhias registradas na CVM e aplicarmos uma média aproximada de 7 membros por conselho, chegamos a cerca de 5 mil posições formais. Arredondando para incluir variações de tamanho de conselho, comitês e registros incentivados, o piso plausível fica perto de 6 mil posições remuneradas.

Esse número é defensável, mas estreito demais. Ele mede o topo formal do mercado, não o mercado real de conselheiros no Brasil.

A camada intermediária: empresas fechadas, familiares e maiores Ltdas

A camada mais importante provavelmente está fora da bolsa: empresas familiares, empresas de capital fechado, sociedades anônimas fechadas, grupos médios e grandes sociedades limitadas.

O Brasil tinha mais de 205 mil sociedades anônimas ativas, e 77% das S.A.s abertas no 2º quadrimestre de 2025 eram de capital fechado. Mas seria incorreto assumir que todas essas empresas têm conselho remunerado. Muitas S.A.s existem por motivos societários, tributários ou patrimoniais, sem um conselho ativo e pago.

Uma hipótese mais prudente é que apenas uma pequena fração dessas empresas tenha conselhos ativos e remunerados. Mesmo assim, a base é suficientemente grande para gerar dezenas de milhares de cadeiras.

SegmentoHipótese de cálculoEstimativa de posições
Companhias abertas e reguladas715 empresas × cerca de 7 membros5 mil a 6 mil
Empresas fechadas maiores, familiares e S.A.s fechadas com governança formalPequena fração das empresas médias/grandes e S.A.s ativas, com 4 a 6 membros remunerados10 mil a 45 mil
Cooperativas, entidades e estruturas híbridas com governança remuneradaBaixa penetração, mas base relevante1 mil a 5 mil
Total formal defensável16 mil a 52 mil

É daí que vem a estimativa formal de 6 mil a 52 mil posições, dependendo de quão restrito é o critério usado.

Por que o número real pode ser muito maior?

A estimativa formal provavelmente subestima o mercado por um motivo simples: muitos conselhos consultivos e advisors pagos não são registrados como “conselho” em lugar nenhum.

O próprio IBGC trata o conselho consultivo como um fórum facultativo, sem poder deliberativo, que pode apoiar empresas de capital fechado, startups, scale-ups, organizações sem fins lucrativos, companhias abertas, multinacionais e cooperativas. Ou seja: o conselho consultivo não pertence apenas ao universo das grandes empresas.

Além disso, a remuneração de conselheiros consultivos não é apenas teórica. Em pesquisa do IBGC sobre empresas de capital fechado, mais de 80% dos conselheiros respondentes eram remunerados. A pesquisa também apontou que 61,9% dos conselheiros consultivos recebiam até R$ 15 mil por mês, e que conselhos consultivos formalizados tendiam a se aproximar das faixas de remuneração de conselhos de administração.

Esses dados não permitem inferir a quantidade total de conselheiros no Brasil, porque a amostra tende a capturar empresas mais maduras em governança. Mas eles confirmam uma coisa importante: conselho consultivo pago existe, inclusive em empresas fechadas.

A camada invisível: pequenos conselhos consultivos

A camada mais difícil de medir é também a que pode multiplicar o tamanho do mercado: pequenas e médias empresas que pagam um profissional externo para participar de reuniões mensais, orientar os sócios, abrir portas, revisar estratégia ou apoiar decisões comerciais.

Essas posições muitas vezes não aparecem como “conselho de administração”. Podem aparecer como consultoria, mentoria, advisor, conselho consultivo, participação mensal, contrato de prestação de serviço ou até uma combinação informal de relacionamento e aconselhamento estratégico.

Para estimar essa camada, faz mais sentido partir das empresas com empregados, não apenas das sociedades anônimas. O IBGE identificou 568.966 empresas e organizações com 10 a 49 pessoas assalariadas e 2.203.726 com 1 a 9 pessoas. Mesmo uma taxa muito baixa de adoção de advisors pagos gera um número grande de posições.

CamadaHipótese otimista, mas ainda defensávelEstimativa de posições
Mercado formalCompanhias abertas, empresas fechadas maiores, cooperativas e governança formal16 mil a 52 mil
Empresas de 10 a 49 empregados1% a 4% com 1 a 2 advisors ou conselheiros consultivos pagos9 mil a 34 mil
Empresas de 1 a 9 empregados0,25% a 1% com ao menos um advisor pago recorrente6 mil a 22 mil
Startups, scale-ups e negócios investidosPequena fração com advisors remunerados em dinheiro, equity ou contrato2 mil a 10 mil
Sobreposição e ajuste conservadorRedução para evitar dupla contagem
Total ampliado50 mil a 150 mil

Essa é a parte mais especulativa da conta. Mas ela não é absurda. Para chegar a 50 mil posições, basta que uma fração muito pequena das empresas com empregados tenha algum tipo de conselheiro ou advisor pago. Para chegar a 150 mil, é preciso assumir uma adoção mais ampla em empresas médias, pequenas empresas profissionalizadas, negócios familiares e startups.

Então qual número usar?

Depende do uso.

Uso da estimativaNúmero recomendado
Estimativa conservadora, fácil de defender6 mil a 52 mil posições
Estimativa realista para o mercado formal + informal profissionalizado50 mil a 150 mil posições
Número único para comunicar tamanho de oportunidadeCerca de 80 mil posições remuneradas
Número provável de pessoas30 mil a 100 mil pessoas

O número mais honesto para um artigo de referência é, portanto:

O Brasil provavelmente tem algo entre 50 mil e 150 mil posições remuneradas de conselheiro, advisor ou membro de conselho consultivo, se incluirmos tanto conselhos formais quanto conselhos consultivos informais. O núcleo mais formal e documentável fica entre 6 mil e 52 mil posições.

O que essa estimativa não inclui bem

  • Conselhos familiares sem remuneração formal.
  • Mentores pagos por hora, sem contrato recorrente.
  • Consultorias estratégicas vendidas como “advisor”, mas sem papel de governança.
  • Equity advisors em startups sem remuneração mensal.
  • Conselhos fiscais e comitês estatutários, quando separados do conselho principal.

Essas fronteiras importam. Se tudo isso for incluído, o número pode passar de 150 mil. Mas aí o conceito deixa de ser “posição de conselheiro” e vira “qualquer relação remunerada de aconselhamento estratégico”. Para manter a estimativa útil, é melhor não misturar tudo.

Conclusão

O mercado brasileiro de conselheiros remunerados é maior do que parece quando olhamos apenas para empresas listadas. O número formal e mais defensável provavelmente está na faixa de 6 mil a 52 mil posições. Mas, ao incluir conselhos consultivos e advisors pagos em empresas fechadas, familiares, pequenas empresas profissionalizadas e startups, uma faixa de 50 mil a 150 mil posições é defensável.

A conclusão prática é simples: o mercado existe em dois níveis. No topo, há um mercado formal, seletivo e relativamente pequeno. Abaixo dele, há um mercado muito maior, menos visível, de aconselhamento estratégico pago. Para quem quer se tornar conselheiro no Brasil, é provavelmente nesse segundo mercado que está a maior parte das oportunidades de entrada.

Leia também: quanto ganha um conselheiro de administração no Brasil.

Fontes usadas nesta estimativa